Portefólio de coisas que nunca fiz
Projeto Final — Desenho e Performatividade
Clara Ginoulhiac
Unidade Curricular: Desenho e Performatividade
Docente: Paulo Almeida
Este projeto nasce da vontade de explorar o espaço digital enquanto campo de questionamento artístico, afastando-o da sua função dominante de eficiência, produtividade e clareza comunicativa. No contexto da unidade curricular Desenho e Performatividade, o trabalho procura refletir o desenho enquanto ato performativo, documento e projeção de um corpo em ação, transpondo estas questões para o meio digital.
O projeto assume a forma de um arquivo online, apresentado como um portefólio artístico. No entanto, todas as obras nele contidas nunca foram realizadas. Esta contradição é central ao trabalho e propoẽ pensar o desenho não só enquanto imagem executada, mas também enquanto intenção e possibilidade latente.
A reformulação do projeto conduziu à criação de um portefólio digital de obras inexistentes. Cada trabalho é apresentado segundo os códigos tradicionais da documentação artística, sendo acompanhado de fotografias de vazios que pretendem posicionar o trabalho nunca feito num espaço desejado.
Este formato remete para as estratégias de documentação analisadas por Philip Auslander, onde o documento pode adquirir uma dimensão performativa própria. Assim, este estas fotografias ilustram uma realidade que apenas surge no seu próprio contexto, dcumentando a antecipação de uma ação que nunca aconteceu.
O portefólio funciona, assim, como um arquivo de gestos adiados, intenções não cumpridas e ações possíveis.
Contexto e primeiras intenções
A ideia inicial do projeto consistia na criação de um site onde diferentes utilizadores poderiam projetar espacialmente memórias pessoais, construindo um arquivo coletivo de espaços subjetivos. Este arquivo funcionaria como uma galeria digital de memórias arquitetónicas e afetivas, explorando a relação entre espaço, recordação e representação e procurando estabelcer a ideia da memória de forma modular.
No entanto, após uma reflexão, tornou-se evidente que esta abordagem deslocava o foco do trabalho para um campo excessivamente gráfico, afastando-se das questões centrais do desenho enquanto ato performativo e documento. Esta reflexão levou a uma reformulação do projeto, optando-se por uma solução mais contida, conceptual e coerente com as temáticas que fui explorando ao longo do semestre.
A página pretende recusar a metodologia de trabalho que olha para o projeto de desenho como um trabalho finalizado, em vez disso, transformando os projetos em idias e propostas como si só, que sobrevivem na imaginação do espectador, podendo ser imaginadas sobre as fotografias dos espaços vazios.
Reformulação do projeto
A versão final do projeto assume a forma de um portefólio digital aparentemente convencional, mas cujo conteúdo revela uma contradição fundamental: todas as obras apresentadas nunca foram realizadas. Cada trabalho surge descrito com título, data, técnica, dimensões, duração e estado, seguindo os códigos institucionais da documentação artística.
O site pretende um aspeto minimalista e claro com elementos gráficos que remetem ao irreal e imaginativo.
O site foi desenvolvido com elementos simples de HTML, CSS e JavaScript, mantendo-se desta forma fiel ao que seria um portefólio normal.
As obras apresentadas partem de ações simples e cada uma questiona o ato de pensamento ou o ato do desenho de forma diferente.
- Linha contínua a suster a respiração - este trabalho procura olhar para o desenho enquanto ação presente no tempo, em que o limite da respiração se torna no próprio limite temporal do trabalho.
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Moldes de gesso de todos os cantos da casa — trabalho que explora o espaço doméstico na sua ausência, transformando-o em algo indexável e modular.
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Exaustão de todas as canetas em minha casa - transformação de uma ação repetitiva num agente espacial. O tempo gasto nesta ação é equivalente ao espaço gasto por ele.
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365 molas no corpo — ação prolongada no tempo, gradualmente transformando um momento simples na imaginação da dificuldade e dor que seria posicionar as 365 molas, para além da transformação num ritual que se extenderia ao longo do ano.
Estas propostas podem ser entendidas como proto-performances, onde o evento é transcrito através de descrições, diagramas e instruções, independentemente da sua execução real.
O desenho manifesta-se aqui como linguagem e protocolo, mais do que como imagem final.
Conclusão
Este projeto propõe uma reflexão sobre os limites entre desenho, performance e documentação. Ao apresentar um arquivo de obras nunca realizadas, questiona-se a centralidade da ação física e afirma-se a potência conceptual da intenção e da descrição.
O espaço digital surge como território performativo, onde o desenho se manifesta enquanto protocolo, linguagem e arquivo. O portefólio deixa de ser um instrumento de exposição e transforma-se num campo crítico, onde a ausência e o não-acontecimento se tornam na matéria artística.
O projeto assume-se, assim, como um arquivo ativo de possibilidades não realizadas.












