Viagem, uma ação de se mover de um ponto a outro, um percurso. O exílio do território conhecido a caminho de um lugar incerto.  (Há conforto em não saber)

Caminhar, prática intrínseca do ser humano; a forma mais primitiva de transporte. O balance, o posicionamento corporal no espaço, a tensão muscular de quem percorre.

Com o passar do tempo, aquilo que se repete se incorpora, tornando-se assim parte interior e vital da estrutura corpórea que habita o espaço. Atravessam-se territórios e suas fronteiras, e a viagem me atravessa, desequilibra-me dos meus pedestais.

O constante deslocamento, a prática recorrente de estar entre territórios, entre vidas paralelas de um mesmo ser, cria em si vida própria. A abstração deste percurso se torna uma viagem pessoal, para dentro de mim. Quando se entra no avião e se alcançam as nuvens, sobrevoa-se também a noção da realidade concreta. 

Torna-se recorrente, portanto, a prática da fuga, não propriamente do mundo físico, mas para um refúgio mental, em que se desenham linhas, se dialoga com formas e cores, algo de caráter primitivo quase que infantil, inocente e primário. Um projeto sem programa, uma tela branca.  

DIS-EMBODIMENT OF PLACE, DIS-PLACEMENT OF BODY.  

Visando perceber o percurso como uma prática física provocadora da abstração mental, assim sendo, projetual, proponho para este trabalho estudar o corpo humano como um motor abstracionista, capaz de desenhar uma realidade que diz respeito àquela que é de facto real, mas que, ao mesmo tempo, é paralela à mesma. O meu corpo é o umbigo do meu mundo. 

Sunstentando-me no pensamento de Pallasmaa em que o sentido existencial, ou seja o sentido integrado da realidade e da nossa experiencia individual de estar no mundo , juntamente com a consideracao de que vemos o que queremos que la esteja, trazida no livro “La construccion de la mirada”, pretendo, interligar os meus próprios percursos, peregrinações e mudanças do habitar com esta tendência ao escapismo mental, cruzando esta prática física com a minha abordagem projetual, bem como as obsessões (referências) que me atravessam, como a pintura Black Square and Red Square de Kasimir Malevich 1915, a disposicao das cores nas composicoes de Mondrian, ou como Vivienne Westwood, Pacco Rabanne e Issey Miyake vestem o corpo. 

Portanto, a carne em seu sentido e instinto mais primitivo passa a inquietar-me, muito guiada pelo discurso do livro Flesh de Elizabeth Diller, vejo esse homem nômade se interseptar ao mundo interior - penso logo habito - aquilo que habita o corpo e ao corpo que habita o mundo.  Assim como Don Quixote, viaja no sentido mais literal da palavra, essa prática se incorpora em sua mente, que entende essa prática física como repetitiva e habitual, transformando moinhos em gigantes, criam-se narrativas, e faz-se literatura, como faz-se projeto. 


Estudo dos percursos realizados ao longo da minha vida através da linha vermelha sob o mapa. Abstraindo a realidade racional em que esse objeto se desenvolve, é formado outro desenho que afirma esse percurso mental a partir da viagem física. Em meus vinte anos de existencia, tornou-se rotineiro deslocar-me, cresci dessa maneira, e foi assim que aprendi a ver o mundo. Mais do que ver, senti-lo e interpretá-lo.