DESENHO E PERFORMATIVIDADE

MARIA ALVES DA CRUZ

De que formas podemos reencontrar territórios afetivos através da matéria?

 

O retorno ao lugar da infância tem sido o meu foco de estudo na minha prática artística, procurando criar diálogos entre matérias herdadas, explorando a memória e relações sensoriais com o espaço e com a matéria.

O ferro surge como parte dessa herança materiall. A proximidade que tenho com esta matéria resulta de uma infância marcada pelo tempo que ocupava no espaço da fábrica do meu pai a desenhar no chão, nas paredes e no ferro que encontrava, distante da realidade do trabalho.



 



RETÓRICA DO ATO PERFORMATIVO

Workshop 2

 

TRANSFERÊNCIA DE USO

Workshop 1

 

O exercício de observação parte do momento da viagem de autocarro que faço regularmente no regresso a casa. Reuni uma série de ações desde a chegada ao terminal, caracterizado pelo movimento, caos e multidões agitadas.

Já dentro do autocarro, reuni os meus gestos habituais, esticar-me ao máximo para colocar a mochila no compartimento de cima, sentar-me, soltar o cabelo…

Além dessas pequenas ações e gestos rotineiros que partem de mim, achei interessante tirar partido dos movimentos exteriores a mim, que eu não consigo controlar, desde o movimento do veículo, a velocidade, as visões fugazes da paisagem vistas da janela, compreendendo isto como a "substituição e deslocamento de um ato performativo para outro quadro (...) que não o seu" e questionado-me: estarei eu, no momento da viagem, num quadro que também não é o meu? O meu corpo está em deslocação, mas eu não sou o agente desse movimento, como se o meu gesto fosse conferido a outra entidade, assim como no desenho.


O desenho infantil surge como grau-zero.

Desse modo, parti do desenho que em tempos foi também uma resposta a uma "proposta" de auto-representação, e transferi-o para uma dimensão quase contrária, e controversa. Refleti sobre a ideia de que "nunca" uma criança iria desenhar espontaneamente numa chapa com solda, e também, por outro lado, a ideia de que "nunca" um serralheiro, numa fábrica, iria soldar um desenho numa chapa (de acordo com as normas da nossa sociedade ocidental atual com a qual estamos mais familiarizados, "nunca” não demonstra uma impossibilidade, apenas uma improbabilidade).





adiecto

Transferência desenho-ação 

Adição do ferro, da dimensão industrial e da solda

Transferência ação-desenho

detractio

Retirar a noção de espontaneadade e infantilidade, através do planeamento prévio

Transferência entre 2 ações

inmutatio

Substituição do suporte, e dos materiais

DESENHO, PERFORMANCE E DOCUMENTAÇÃO

DESENHO COMO INSTRUÇÃO

O lugar que escolho para realizar a minha ação, como solicitado em aula, é caracterizado pela ausência, pela falta de movimento. Nesse sentido, opto por realizar uma ação de afirmação de presença nesse mesmo espaço, utilizando um lençol como extensão do meu próprio corpo, de modo a produzir o máximo de movimento possível neste lugar.

( Instrução realizada e dada por José Nuno )

( Instrução realizada e dada por José Nuno )

( Documentação em vídeo da performance )

Exercício realizado

Esta performance deu-se no momento em que o corpo habitou este território, e decidiu atuar nele, não sendo possível preservar a mesma. É algo extremamente paradoxal, ou até irónico: é devido à sua presença (corpo) que a performance existe, e, simultaneamente, apenas se afirma deste modo ao se tornar ausente, não podendo existir a sua reprodução/documentação

TRABALHO FINAL

Para o trabalho final, com base no exercício da Transferência de Uso abordo uma temática já presente no meu projeto, na minha prática artística, em que procuro compreender a minha relação com o meu território de infância e com uma herança tanto material, familiar e cultural, que envolve a prática têxtil.

Este tema é abordado através de um exercício de arqueologia como método de procura e exploração de ideias e conceitos que fazem parte de uma dimensão mais coletiva. Estes conceitos são resgatados através da memória de uma aprendizagem relacionada à prática têxtil, e é precisamente sobre essa dimensão da gestualidade que me interessa trabalhar – uma gestualidade que faz parte de uma herança cultural, mas também familiar. Esta ideia surge ao reencontrar o gesto de tornar em novelo, uma meada, um gesto que me foi ensinado pela minha avó materna, e que reencontrei com a minha mãe.

Desenvolvo, assim, um arquivo de gestos – como desenvolvido por Richard Serra em Verb List (1967) – que vou recolhendo, numa tentativa de relembrar os mesmos, e de compreender a sua importância e permanência na minha memória.

Na prática, procuro reencontrar gestos do passado, considerados possivelmente banais, comuns, e convencionais, e transferi-los para um momento presente, criando momentos de suspensão entre ferro, têxtil e memória. Como defendido por Howell (1999) a infância, a maturidade e a morte encontram-se no princípio, no meio, e no fim de um ato performativo, como se ao realizar um determinado conjunto de gestos e ações, fôssemos transportados para um momento mais primordial, ou até primitivo e infantil, motivado por uma memória, ou reminiscência de algo anterior.